segunda-feira, 19 de março de 2012

Preso o acusado da morte de juiz de Presidente Prudente

Quinta-feira, 15/03/12 - 17:49.

Atualizado às 11h40 de 16/03

Policiais da 2ª Companhia do 21º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) prenderam, na manhã desta quinta-feira (15), J.C.R.L., de 46 anos, acusado de envolvimento na morte do juiz corregedor de Presidente Prudente, Antonio José Machado Dias, em 2003, e de dois roubos.

O suspeito, abordado na rua Ascanio, na Vila Diva, zona leste da capital, cumpria pena em regime semiaberto após ter sido condenado pelo assassinato do juiz. Ele estava foragido desde setembro do ano passado. A prisão foi registrada na 5ª Central de Flagrantes (Leste).

Assessoria de Imprensa da Secretaria da Segurança Pública

domingo, 11 de março de 2012

Escolas públicas poderão distribuir pílulas do dia seguinte

É o que se depreende da declaração de uma autoridade federal em reportagem publicada pela Folha de S. Paulo, neste domingo (11/03/2012).
O Ministério da Saúde pretende facilitar o acesso à pílula do dia seguinte no SUS e, provavelmente, nas próprias escolas da rede pública – é o que mostra reportagem da Folha de S. Paulo publicada neste domingo (11/03/2012). Segundo o ministério, o precário acesso à pílula não é por falta do medicamento, uma vez que o Ministério da Saúde já disponibiliza, por ano, 770 mil cartelas, gratuitamente, nos postos de saúde. E nas farmácias privadas são vendidas anualmente mais de 5 milhões de cartelas. Ocorre que grande parte dos postos de saúde impõe algumas restrições para a distribuição da pílula, entre elas, a receita médica. E no caso de adolescentes, costuma-se exigir a presença dos pais ou responsável.
Segundo o secretário nacional de Atenção à Saúde, Helvécio Magalhães, “o ministério vai usar a estrutura do programa ‘Saúde na Escola’ para ampliar a divulgação dos métodos anticoncepcionais entre os adolescentes”. Ou seja, uma vez que esse programa não se limita a fornecer apenas educação sexual teórica e já distribui camisinhas nas escolas, é provável que irá, a partir de agora, distribuir também a pílula de emergência para as alunas.
Diz ainda a reportagem:  “Ele [o secretário de Atenção à Saúde] reconhece a falta de campanhas educativas maciças sobre contracepção, mas diz que elas vão acontecer em breve. "Isso não tinha entrado na agenda política, mas é fundamental para prevenir gravidez indesejada."
Reparem no absurdo dito pelo secretário e corroborado pela reportagem. Há mais de duas décadas, em função da Aids, o governo não faz outra coisa senão apresentar a camisinha como a solução de todos os problemas da humanidade, em campanhas que vão das redes de TV ao transporte coletivo das cidades de médio e grande porte. O que é isso senão campanha de massa contra a concepção?
Se a distribuição maciça de camisinha não reduziu satisfatoriamente os casos de Aids nem de gravidez indesejada, por que agora surtiria efeito? É só mais uma forma de gastar dinheiro público à toa. Ao se distribuir em massa a pílula do dia seguinte nos postos de saúde, mesmo quem pode comprá-la na farmácia vai optar por recebê-la de graça do Estado – à custa de todos os contribuintes que nada têm a ver com as irresponsabilidades de cada um.

O preço público da irresponsabilidade

Matéria da Folha denuncia que adolescentes têm dificuldade para conseguir a pílula do dia seguinte nos postos de saúde. E se tivessem facilidade? O país iria trabalhar para comprar e distribuir pílula e camisinha, o que é um contra-senso.

Acesso público à pílula de emergência permanece precário

Além de escassez, falta médico para assinar a receita e postos chegam a exigir presença dos pais para menor. Compra do remédio é feita sem prescrição; a cartela com dois comprimidos custa entre R$ 9 e R$ 23

Reportagem de CLÁUDIA COLLUCCI

Quase uma década após o início da distribuição da pílula do dia seguinte no SUS, o acesso a ela ainda é precário. Além da escassez, o principal entrave é que as unidades de saúde exigem receita para dar o contraceptivo.

Muitas vezes, porém, não há médico para assinar a prescrição no momento em que a mulher procura o posto de saúde.

Uma consulta com o ginecologista chega a demorar dois meses. A pílula só previne a gravidez se ingerida até 72 horas após o ato sexual.

Nas farmácias, as mulheres compram o remédio sem receita, por preços que variam entre R$ 9 e R$ 23 -cartela com dois comprimidos. A droga tem tarja vermelha, o que exige prescrição.

As adolescentes sofrem ainda mais dificuldade para obter a pílula. Embora diretrizes do Ministério da Saúde garantam o direito à privacidade e ao sigilo de suas informações, muitos postos exigem a presença de pais ou responsáveis para liberar o contraceptivo de emergência.

Levantamento feito em 2008 pelo Instituto da Saúde, ligado à Secretaria de Estado da Saúde, revelou que mais de 50% de 119 municípios paulistas pesquisados restringiam a oferta da pílula para adolescentes. São os últimos dados disponíveis.

"É uma hipocrisia e um total contrassenso", diz a pesquisadora Regina Figueiredo, do Instituto da Saúde.

"Se a adolescente chega grávida, aos 15 anos, ela será atendida no posto porque ganha um status social de adulta. Se chega pedindo contraceptivo, não consegue", diz.

Embora a taxa de gravidez na adolescência tenha caído na última década, 23% dos partos feitos no país ainda são de jovens entre 15 e 19 anos. Estima-se que um quarto dos abortos provocados estejam nessa faixa etária.

DESIGUALDADE

Segundo Margareth Arrilha, diretora executiva da CCR (Comissão de Cidadania e Reprodução), a exigência da receita amplia as desigualdades no acesso e no uso do contraceptivo de emergência. "Só as mulheres pobres sofrem com isso."

"Não tem sentido manter a exigência. Estamos penalizando mulheres que são as mais vulneráveis a se submeterem a um aborto inseguro", afirma o ginecologista Nilson Roberto de Melo, diretor da Febrasgo (federação das associações de ginecologia).

O aborto provocado é hoje a terceira causa de mortalidade materna no país.

Em serviços que atendem a vítimas de violência sexual, a pílula do dia seguinte é oferecida desde 1999 e já reduziu pela metade a necessidade de aborto legal. Em postos de saúde, ela só começou a ser distribuída em 2005.

O obstetra Aníbal Faúndes, pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), garante que a pílula não traz riscos à saúde da mulher. "Qualquer entrave vai contra o efeito esperado, que é prevenir gravidez indesejada", diz ele.

Segundo especialistas, o acesso à pílula de emergência é prejudicado por problema na distribuição do medicamento e pela falta de informação de funcionários e das próprias mulheres em relação aos seus direitos.

(Reportagem da Folha de S. Paulo, Caderno Cotidiano, domingo, 11 de março de 2012)

Polícia do Rio investiga pastor-celebridade por denúncias de estupro, tortura e ameaça de morte

Com bom trânsito entre políticos, artistas e ONGs, o pastor Marcos é agora acusado de abuso sexual, tortura de crianças e conivência com a bandidagem que ele diz “curar”, conforme revela reportagem de VEJA desta semana

Na última década, o pastor carioca Marcos Pereira, 55 anos, conquistou respeito em rodas que mesclam políticos, desembargadores, artistas e uma vasta turma egressa de ONGs. Entre os que já o viram em cima de um púlpito gesticulando com um de seus Rolex em punho e desejando “rajadas de glória” à plateia, estão o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), a produtora Marlene Mattos e o ex-pagodeiro Waguinho, que, mesmo sem se eleger, alcançou 1,3 milhão de votos na última disputa para o Senado tendo o pastor Marcos como cabo eleitoral. Alçado à condição de religioso-celebridade, Marcos extrapolou, e muito, as fronteiras de sua igreja, a pentecostal Assembleia de Deus dos Últimos Dias, com sede no Rio e filiais no Paraná e no Maranhão. Desde 2004 — depois de pôr fim a uma sangrenta rebelião em um presídio do Rio, a pedido do então secretário de Segurança, Anthony Garotinho —, ele passou a ser visto como o mais habilidoso apaziguador de conflitos liderados pela bandidagem, com um currículo que, segundo o próprio, inclui o resgate de centenas do tráfico. Tem feito esse trabalho no Brasil inteiro e já foi várias vezes aos Estados Unidos, onde quer erguer um templo, para falar da experiência. Pois por trás dessa fachada, ao que tudo indica, se esconde um enredo de atrocidades que não deixa pedra sobre pedra da imagem de bom religioso do pastor.
Em um recém-instaurado inquérito, cujo número é 902-00048/2012 e que está em poder da Delegacia de Combate às Drogas do Rio, ele é acusado de encenações de cura pela fé, estupro, tortura de crianças e relações criminosas com os marginais aos quais esbravejava promessas de “salvação do demônio”. VEJA teve acesso a trechos da investigação, um conjunto de relatos de gente que diz ter sido vítima ou testemunha da perversidade do pastor. Um de seus homens de confiança durante mais de seis anos, longe da igreja há dois, traz à luz uma história escabrosa, que dá a dimensão de como o pastor se enfronhou no mundo do crime. Essa testemunha sustenta, por exemplo, que Marcos ficou claramente do lado dos bandidos que engendraram a mais sangrenta onda de terror no Rio, em 2006. Depois dos ataques, reuniu seu séquito mais íntimo em uma churrascaria. “Ele queria que os bandidos tivessem até explodido a Ponte Rio-Niterói. O objetivo era aparecer depois como o intermediário salvador”, conta o ex-fiel. A trama piora na voz de outra testemunha, que situa o pastor como braço operacional da selvageria. “Marcos foi ao presídio de bangu 1 e saiu de lá com um recado dos chefões do tráfico para que suas quadrilhas dessem sequência à carnificina”, rememora. Como sabe disso? “O pastor me encarregou de repassar a ordem nas favelas. E foi o que eu fiz.”
A polícia já colheu uma dezena de depoimentos, e muitas das histórias se repetem nos mínimos detalhes. A investigação começou há duas semanas, depois que o coordenador da ONG Afro- Reggae, José Junior, 43 anos, veio a público denunciar que o pastor tinha um plano para matá-lo. A informação vinha de integrantes da própria igreja. “Trata-se de um psicopata”, dispara Junior, que hoje tem a seu lado na ONG um antigo braço direito de Marcos, o pastor Rogério Ribeiro de Menezes, 39 anos. Afastado do templo de Marcos desde 2008, ele fala pela primeira vez sobre os dezessete anos que viveu sob suas asas. Tomou a decisão depois de ter sido ameaçado de morte três vezes — na última, os traficantes de uma favela esfregaram um fuzil contra seu rosto e pronunciaram o nome Marcos.
Seu depoimento ajuda a elucidar o que tanto unia o pastor aos traficantes que ele dizia “curar”, e certamente não era a fé. Não raro, Marcos lhe pedia que escondesse mochilas cheias de dinheiro em sua casa. Contou duas vezes a coleção de notas. “Numa delas, havia 200 000 reais. Na outra, 400 000 reais”, lembra Rogério. Detalhe: traziam resquícios de cocaína e crack. Segundo Rogério, o pastor cobrava até 20 000 reais para pregar nas favelas, o que os traficantes pagavam de bom grado, já que assim mantinham sua base assistencialista. Três deles chegaram a ser presos em propriedades da igreja do pastor, no Rio e no Paraná, mas a polícia nunca comprovou que estavam ali com a conivência do religioso. Todos pagaram uma taxa equivalente a 10% de tudo o que haviam acumulado no crime.
Em seu templo, o fundador é tão reverenciado quanto temido. Até hoje, manteve todos em silêncio à base de benesses e ameaças. Duas mulheres contam como a igreja se tornou um show de horrores no qual lhes cabia o papel de vítimas do pastor. Ambas dizem que foram violentadas sexualmente por ele diversas vezes. À polícia, uma das moças afirma ainda que Marcos obrigava as fiéis de sua preferência a manter relações sexuais com outros homens, em orgias das quais também participava. “Depois, mandava a gente confessar tudo com outro pastor, sem revelar nomes, é claro”, ela conta. Constam ainda do inquérito denúncias de crueldades contra crianças que o pastor mantinha sob sua guarda, em geral abandonadas pelos pais. Uma delas, de 7 anos, teria pago caro por testemunhar, casualmente, as peripécias sexuais do religioso. Ao se dar conta, o pastor agarrou-a pelos cabelos e lançou-lhe a cabeça no vaso sanitário, segundo um dos relatos à polícia.
Ex-garçom, o pastor Marcos é casado e tem dois filhos que já seguem seus passos no mundo da fé. Convertido em 1989, fundou sua igreja dois anos depois e constituiu ali um reinado de trevas. Proíbe refrigerante, rádio, televisão (apesar de ter um telão em seu gabinete) e remédios, já que a igreja se encarrega da cura (aos que pagarem uma taxa extra via boleto bancário, distribuído durante a pregação). Os cultos, que juntam até 15 000 pessoas, são barulhentos e teatrais — literalmente, segundo narra um ex-assessor do pastor, que ajudava a armar o show: “Ele dava dinheiro a viciados para comprarem droga, filmava a turma em degradação e depois levava para a igreja, como se os estivesse salvando”. Na última segunda- feira, um rapaz adentrou a Assembleia de Deus dos Últimos Dias de muletas, que usava desde um acidente que lhe machucara o fêmur. Depois das orações do pastor Marcos, caminhou em frente aos fiéis dizendo-se curado. Findo o culto, subiu na mesma moto que havia conduzido na viagem de ida à igreja e foi embora.


(Publicado na versão virtual de Veja em 10 de março de 2012)

sábado, 10 de março de 2012

Artigo antológico de Reinaldo Azevedo sobre o movimento dos ciclistas

Os pitorescos do selim. Ou: A revolução dos pelados reacionários

Mas que gente pitoresca!

Como sabem todos, a minha única intenção no primeiro texto sobre os bikers, que pretendia ser o último, era lhes informar que eles não tinham o direito de parar a Avenida Paulista, que aquela era uma ação fascitoide. Já tinha ouvido falar e contatei bem de perto que os bikers mobilizados, os talibikers e fascisbikers, se querem mesmo pensadores da cultura, da democracia, da economia, da ecologia e da política. Ah, deixem-me atrair mais um pouquinho de ódio: aposto que a maioria vota na Marina Silva e jura entender o que ela diz. O obscurantismo costuma ser totalizante! Dada a qualidade da argumentação, nota-se que eles aprenderam tudo aquilo alisando o selim - já que não brota uma maldita referência técnica, nada! O maior pensador que eles conseguiram mobilizar foi Gilberto Dimenstein, que apóia a “Pedalada pelada”. O jogo de sílabas mexe com os meus instintos concretistas mais primitivos, mas vou me conter. Volto. Que gente pitoresca!

Fiz um texto até bem-humorado (sim, os “bikers” se querem pensadores sérios e não aceitam ser questionados - ou eles prometem até mesmo matá-lo; se for mulher, a coisa pode ser… pior!) sobre o apoio que Dimenstein resolveu emprestar aos que pretendem desfilar pelados de bicicleta, e a zanga foi imensa. Eles se sentiram ofendidos!!! Ameaçar de morte, pode! Chamar de bestalhão é ofensa inaceitável, punível com a… morte! Entenderam a, por assim dizer, “cabeça” de um talibiker? Ainda não sei quem é o Mulá Omar deles… Eu escrevi “mulá”!!!

Segundo o jornalista, pedalar pelado “é um inteligente jeito de tirar a roupa para ajudar a cidade de São Paulo”. Eu acho que a única coisa inteligente que a gente pode fazer pelado, quando acompanhado, é nheco-nheco, ué. Não posso achar? Ficar pelado por São Paulo? Qual é o lema? “Meu traseiro em benefício da cidade”? Sim, manguei, sim, e umas doidas aí me acusaram de machismo. Escrevi: “As pessoas que realmente valem a pena não ficam peladas, e as que ficam não valem a pena…” Ué… Machismo por quê? As mulheres e os gays devem achar o mesmo sobre os homens. Deixem-me arrumar mais uma confusão - até parece que me importo… Isso é como praia de nudismo. Ou junta gente disposta a demonstrar que não está nem aí “para os padrões burgueses de beleza” ou os tarados. Em qualquer caso… “Só gente bonita pode agora ficar pelada?” Eu não afirmei nada disso. Feios e bonitos podem ficar nus à vontade nos ambientes adequados. Se mostram a bunda na rua, facultam o direito de o outro comentar: “Mas que coisa deprimente!” Ou uma bunda feia deixa de ser uma bunda feia porque preocupada com o aquecimento do planeta?  “Então esse é seu critério, Reinaldo Azevedo?”

Ah, chegamos ao ponto. Querem falar a sério? Até os “bikers” merecem isso de vez em quando, e eu não me importo de lhes oferecer uma tábua de salvação para o mundo da cultura e da civilização. Nada é mais privado do que o corpo. O estatuto mais importante das democracias é justamente o “habeas corpus” - literalmente, “tenha o teu corpo”. O nosso primeiro e fundamental direito é a posse daquilo que entendemos ser a morada inteira do nosso espírito. Se desloco um protesto de natureza política, uma reivindicação de caráter coletivo, uma petição ao estado, para o meu corpo, fazendo dele o veículo dessa demanda, eu o exponho a uma politização perigosa, facultando ao outro - e toda mobilização se estabelece contra um dado statu quo - uma reação de que esse corpo pode ser obeto e alvo.

Ao contrário do que afirma Gilberto Dimenstein e do que possam pensar os eventuais pelados que desfilarem pelas ruas, tirar a roupa “por São Paulo” é uma péssima maneira de ficar nu porque nada exprime mais a individualidade, exacerbando-a (quando voluntária) ou humilhando-a (quando imposta), do que a nudez. A manifestação, diga-se, se acontecer, expõe mais do que qualquer outra atitude, a natureza da reivindicação e o caráter dos reivindicantes. Em nome de uma coletividade abstrata; eventualmente tocados por teorias escatológicas, finalistas, despregam-se dos homens comuns, daqueles que ficam às margens das ruas, nas calçadas, assistindo ao desfile, com ar entre irônico e incrédulo. São o que são: individualistas radicais (nada tem a ver com o individualismo dos liberais) que acreditam que a sociedade - da qual, no fundo, julgam não fazer parte - lhes é devedora.

Há mais: ao desfilar pelados, julgam também estar desafiando um padrão moral, ao qual estariam apegados, sei lá, os tradicionalistas, grupo aos quais eles julgam, obviamente, não pertencer - daí que se considerem também inimigos dos carros, que seria outra expressão do convencionalismo, de uma sociedade de valores ultrapassados. Gente como Dimenstein - que, afinal, é da “mídia” - lhe dá a ilusão de que esses postulados têm alguma substância e profundidade.

Imaginem o susto que essas pessoas podem levar se for estudar um pouco… Talvez um dia descubram - e não precisam parar de pedalar para isso; basta que não transformem esse ato num exercício intelectual - que as famosas “interdições” que o cristianismo criou relativas ao corpo foram, na sua origem, uma garantia de liberdade. Passaram por derivações, vamos dizer, moralmente teratológicas ao longo do tempo? Sim! Ocorre que, assim como o cristianismo foi o primeiro pensamento organizado de massa que protegeu a vida das mulheres ao criar a interdição do aborto, também foi o primeiro a proteger a integridade física dos fracos contra a vontade dos fortes. A sacralização do corpo protegia quem podia menos de quem podia mais. Não por acaso, sempre que esse equilíbrio se rompe - nas guerras, por exemplo -, o primeiro gesto do vencedor contra o vencido é o estupro - ou variações reduzidas da humilhação sexual máxima.

O que eu estou dizendo, seus bobalhões, se é para falar a sério, é que esse negócio de tirar a roupa para apresentar uma demanda ao estado nos remete, à diferença dos que vocês possam imaginar, para tempos que nenhum de nós gostaria de viver. O resguardo do corpo foi um fator essencial no avanço da civilização. Foi, sim, um ato de repressão: de repressão do violador contumaz. Ficar pelado para pedir uma ciclovia não é só contraproducente. É também estúpido e incivilizado - coerente, de toda sorte, com quem acha que tem o direito de paralisar a cidade e de demonizar pessoas nas redes sociais só porque não gostou de uma opinião.

Vão estudar! Há coisas que não se aprendem no selim, ainda que andar de bicicleta possa ser um exercício saudável para o corpo.

Por Reinaldo Azevedo